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Novo endereço do meu livro... sejam todos Bem-vindos!!!!!!!



- Postado por: Marujo às 20h56
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VOU PASSAR ESTE BLOG PARA UMA NOVA PÁGINA NA SEMANA QUE VEM, TOTALMENTE ATUALIZADO... AGUARDEM O NOVO ENDEREÇO!!!

- Postado por: Marujo às 23h21
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Capítulo 2

De posse de todo material, fui à escola de aprendizes e me mostraram o alojamento. Recebi um número de identificação, 098. Comecei a notar que deixei de ser Clemilton e que os outros ao meu redor também não tinham nomes próprios... Éramos todos números.

O 010  era uma espécie de secretário do sargento, ele me mostrou como funcionava a rotina da escola e me deu um armário e uma cama no alojamento. Logo encontrei com Joca, que agora era o 059, e comecei a ficar mais aliviado, pois com um amigo eu poderia me familiarizar mais rápido.

Dura Realidade

Logo percebi que em nenhum momento me foi falado em fardamento. 059, ou Joca me esclareceu que nós não estávamos entrando para Marinha, que aquele teste era feito para ajudar pessoas de baixa renda a se prepararem para a prova de aprendizes marinheiros que era feita em concurso nacional. Não passávamos de candidatos sem nenhum vínculo com a Marinha.

Em três dias que estava lá, vi nosso amigo Neném desistir e retornar para casa. Foi duro para ele ficar separado dos pais, já que tinha uma família normal. A nossa rotina só nos permitia ir para casa nos finais de semana. Não tínhamos salário, apenas uma ajuda de custo para passagem. Pela manhã estudávamos as matérias da prova de seleção para as escolas de aprendizes marinheiros e a tarde éramos mão de obra para todo e qualquer serviço.

Aquele ambiente era mesmo uma dureza para quem tinha uma família, um lar estruturado e melhores perspectivas de vida lá fora. Junto conosco estavam jovens infratores que vinham da FEBEM (Fundação do Bem-Estar do Menor) e rapazes que eram abandonados pela família. Comecei a meditar se seria bom para mim aquele convívio e me lembrei que a minha vida lá fora também não era tão boa. Ali eu tinha as refeições diárias, educação, cuidados hospitalares e uma cama pra dormir. Resolvi encarar o desafio ao ver os verdadeiros aprendizes saírem fardados para suas casas. Nos tratavam com discriminação, mas na vida sempre haverá isto.



- Postado por: Marujo às 01h05
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Providência

Chegando em casa mostrei a minha madrasta a lista de material que eu teria que comprar. Não era muita coisa,  acho que me lembro de todos os itens:

1 toalha branca

1 Par de Tênis Branco

2 Cadeados

2 Calções Azul Mescla

2 Camisetas Brancas Com manga

2 Camisetas Brancas Sem manga

2 Calças Azul mescla

1 par de sapatos preto social

1 lata de graxa preta

1 lata de polidor de metais

Creme dental e sabonete.

Ao me lembrar desta lista, percebo como minha situação mudou. Na época se tratava de uma despesa enorme para qualquer um da minha família. Zefinha, minha madrasta, me disse que seria necessário esperar meu pai aparecer para que ele providenciasse o material. Sou consciente de que ela não tinha condições. O que eu ganhava na banca de bicho não era suficiente e minha irmã estava com a carga da casa em suas mãos, além, é claro, de ter que satisfazer suas vaidades de uma jovem que tinha namorado rico.

O tempo foi passando, Neném ingressou na escola e logo depois Joca também estava lá. Eu pesquisei todos os preços e me sentia cada dia mais distante da realização daquele sonho de uma vida nova. Meu pai não aparecia, saí da banca e o patrão nem sequer pra me dar uma pequena indenização.

Mas entrou em cena uma pessoa que eu não esperava que pudesse me ajudar. O namorado de minha irmã se chamava Jadi, ele era uma pessoa de nível de vida diferente do nosso. Na época ele tinha um Del Rei com vidros elétricos, novidade e luxo pra todos ali do bairro. Sem que eu esperasse, e, claro, sabendo de toda a situação através de Dinha, me pediu que fosse até o escritório dele no dia seguinte. Não falou do que se tratava e eu nem imaginava o que aconteceria.

No dia seguinte eu estava lá, meio perdido entre as pessoas daquele escritório e aguardando para ser atendido por Jadi. Logo fui chamado à sua sala.

          - Quer dizer que você quer ser marinheiro? Perguntou-me.

- Estou tentando, mas ainda preciso adquirir o material e o meu prazo está se esgotando.

- E você acha que tem chance de ficar?

- No momento o mais difícil pra mim é entrar, se eu superar isso tenho certeza que fico. Respondi com firmeza.

Jadi abriu um sorriso, pegou o talão de cheques e me perguntou: - Sabe de quanto precisa?

Eu tinha as contas na ponta da língua. Ele então me deu o cheque no valor que eu informei, não me cobrou nada, não me fez prometer nada. Simplesmente me passou o cheque e me desejou boa sorte. Foi um momento inesquecível para mim. Eu já não tinha esperanças e de repente tudo mudou. Até hoje sou agradecido a Jadi por esta força que mudou toda minha vida. Valeu amigo!!! Aqui fica minha homenagem a você.



- Postado por: Marujo às 08h29
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O Resultado

É interessante como às vezes o tempo passa tão rápido e em outras vezes ele parece estar parado. Enquanto o dia da prova chegou tão rápido, o resultado, que seria divulgado uma semana depois, parecia estar muito distante. Nesse meio tempo o trabalho se tornava um fardo, a escola era um passatempo e a família uma fonte de comentários (nada desejáveis) sem fim. Minha irmã mais velha era a única que realmente me dava apoio... Conversava um pouco comigo quando tinha oportunidade e me incentivava com mensagens de otimismo. No restante eu sentia um certo ar de incredulidade.

Demorou, mas finalmente fomos receber o resultado. Lembro-me claramente quando o sargento Alípio com um jeitão de militar brabo começou a chamar os nomes. Neném foi o primeiro de nós, logo depois veio o meu nome e fiquei surpreso quando o sargento chegou e particularmente me deus os parabéns. Joca também foi chamado, e abriu o sorriso que lhe era peculiar.

Logo depois da chamada dos aprovados aconteceu algo hilário... O sargento começou a examinar a boca de cada um e a gritar com quem tinha muitos dentes precisando de tratamento. Parece-me que ele estava alienado da situação do nordestino, que muitas vezes acha bonito perder os dentes pra usar dentadura. Felizmente estávamos todos dentro dos padrões mínimos exigidos para que pudéssemos ser incorporados à escola.

Fomos informados que teríamos que providenciar uma lista de material e depois nos apresentarmos para sermos orientados no procedimento de incorporação.

Saímos felizes da vida, com a lista de material na mão e cheios de expectativas quanto ao nosso futuro. Na minha mente uma preocupação: - Como conseguir aquele material? Seria um desafio a mais.



- Postado por: Marujo às 08h32
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Preparação

Comecei a me preparar para aquela prova, era a minha meta conseguir uma vaga na escola de aprendizes marinheiros, sentia que o meu futuro dependia daquele momento. Nunca tive o hábito de estudar em grupo, sempre me isolava nestes momentos e era assim que eu conseguia me concentrar. Joca, que era o único amigo que estava interessado em participar do teste, nem se preocupava em pegar no livro... Era mesmo meio displicente.

Em casa começava outra crise entre meus pais de criação. Minha irmã mais velha estava namorando e sempre que saía com o namorado chegava muito tarde... Isso também causava discussões que pareciam não ter fim. Enfim, o clima tava pesado e era cada vez mais difícil encontrar um meio de estudar tranqüilo.

O tempo não dá trégua e logo chegou a véspera do novo teste de seleção. Joca e eu combinamos que, como na primeira vez, iríamos juntos. Eram cinco da manhã quando ele me chamou, estava junto com ele um outro amigo nosso que chamávamos de Neném (por causa do seu tamanho). Nos apressamos porque eram dois ônibus que tínhamos que pegar para chegar até o local e a prova começava às oito horas e eles não toleravam atrasos.

No caminho, não trocamos muitas palavras, acho que estávamos tensos na expectativa do novo teste.

Finalmente chegamos na escola... Para nossa surpresa a prova foi igual a que já tínhamos feito, sem tirar nem pôr nenhuma questão, o que nos trouxe de volta para casa com um sorriso de orelha a orelha de tanta alegria. Sabíamos que seria difícil não passar naquele teste, mas ainda havia uma questão: - A quantidade de vagas.



- Postado por: Marujo às 23h31
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Uma Nova Chance

Os dias se passaram e acabei por esquecer daquela prova.

Zezinho, meu irmão de criação e patrão, não agüentou a pressão no ramo do jogo do bicho. Suas dívidas cresciam mais a cada dia e a sua esposa implorou que ele saísse desta vida incerta, tanto pediu que conseguiu fazer com que ele passasse os pontos para uma banca mais antiga e mais estruturada. Junto com os pontos foram também os funcionários e eu agora estava trabalhando para pessoas estranhas, o que mudou muito a minha rotina, pois este novo patrão exigia a presença dos funcionários o dia inteiro na matriz para fazer todo tipo de serviço que aparecesse. Folga agora só aos domingos, quando eu ia à praia com os amigos, muitas vezes íamos correndo para exercitar. Joca nem sentia muito os quarenta e cinco minutos de corrida, para mim aquilo era uma eternidade, mas eu acompanhava em ritmo de bagunça e acabava conseguindo chegar. Era um divertimento e tanto, de graça e a gente sempre encontrava a turma do futebol e as meninas do bairro para dar uma paquerada. E foi lá que ficamos sabendo da nova prova de seleção que aconteceria dentro de duas semanas, uma nova chance para tentar ingressar na escola de aprendizes... Prometi a mim mesmo que desta vez seria diferente. 


Preparação

Comecei a me preparar para aquela prova, era a minha meta conseguir uma vaga na escola de aprendizes marinheiros, sentia que o meu futuro dependia daquele momento. Nunca tive o hábito de estudar em grupo, sempre me isolava nestes momentos e era assim que eu conseguia me concentrar. Joca, que era o único amigo que estava interessado em participar do teste, nem se preocupava em pegar no livro... Era mesmo meio displicente.

Em casa começava outra crise entre meus pais de criação. Minha irmã mais velha estava namorando e sempre que saía com o namorado chegava muito tarde... Isso também causava discussões que pareciam não ter fim. Enfim, o clima tava pesado e era cada vez mais difícil encontrar um meio de estudar tranqüilo.

O tempo não dá trégua e logo chegou a véspera do novo teste de seleção. Joca e eu combinamos que, como na primeira vez, iríamos juntos. Eram cinco da manhã quando ele me chamou, estava junto com ele um outro amigo nosso que chamávamos de Neném (por causa do seu tamanho). Nos apressamos porque eram dois ônibus que tínhamos que pegar para chegar até o local e a prova começava às oito horas e eles não toleravam atrasos.

No caminho, não trocamos muitas palavras, acho que estávamos tensos na expectativa do novo teste.

Finalmente chegamos na escola... Para nossa surpresa a prova foi igual a que já tínhamos feito, sem tirar nem pôr nenhuma questão, o que nos trouxe de volta para casa com um sorriso de orelha a orelha de tanta alegria. Sabíamos que seria difícil não passar naquele teste, mas ainda havia uma questão: - A quantidade de vagas.



- Postado por: Marujo às 12h34
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DECEPÇÃO

Finalmente chegou o dia do resultado da prova, e lá estávamos nós com uma expectativa enorme para saber se tínhamos sido aprovados, até que chegou o sargento e começou a ler os nomes dos aprovados... Apenas seis e nós não fomos chamados.

Pela primeira vez eu passava por uma experiência daquelas. As lágrimas vieram ao rosto, mas foram contidas pela vergonha de chorar na frente de outras pessoas. Senti que meu companheiro não se importou muito, levava as coisas mais na esportiva. Já em casa, sozinho, deixei então que a angústia saísse e chorei... Chorei bastante.



- Postado por: Marujo às 19h38
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Continuação

 

Nesta época tornei-me muito popular na escola. Superei a fase ruim que passei com meu pai e voltei a ser uma pessoa alegre apesar de ainda ter muitas dificuldades. O fato de ter uma família, ainda que não fosse a minha, ajudou bastante.

Eu era muito apegado a minha irmã de criação mais velha. Dinha sempre conversava comigo, levava-me à praia e também à casa de suas amigas e isto me fez perder a timidez e o medo de conversar com as pessoas.

Já com Márcia, a irmã mais nova, era uma guerra só. Acho que era por causa da idade ser quase a mesma, havia implicância toda hora e eu sempre me dava mal, pois a proteção maior era pra ela, afinal de contas, eu nem era da família e Zefinha sempre fazia questão de me lembrar isto, deixando-me cada dia mais constrangido.

Eu tinha vários amigos na mesma idade que eu, um deles se chamava "Joca" (acredito ser uma abreviatura de João Carlos). Foi ele que me falou de uma prova que haveria na Escola de Aprendizes Marinheiros de Pernambuco. Eu sabia apenas que se tratava de uma seleção, marcamos então de irmos juntos fazer esta prova.

No dia marcado para prova, saímos de casa às cinco da manhã e fomos até o local da prova, que era na própria Escola de Aprendizes. Era uma prova de nível fácil, apenas as quatro operações e uma redação. Completada a prova, fomos orientados a retornar em uma data posterior para receber o resultado.

- E então, como se saiu? Perguntou Joca.

          - Acho que fui bem, a prova estava fácil. E você, sentiu dificuldades?

          - Não, só não consigo fazer redação... Sou péssimo nisto. Cruel é ter que esperar uma semana pelo resultado. Minha mãe está louca pra que eu fique nesta escola, não vê a hora de dizer que tem um filho marinheiro.

          - Zefinha nem sabe que estou fazendo esta prova. Ela não liga muito pra o que eu faço.

- Aquela mãe de Márcia é muito chata, não sei como você agüenta ela - Disse Joca rindo.

- Mas tu só diz isso porque quer namorar a menina e ela não permite porque sabe que tu é safado cara...

Voltamos pra casa rindo e falando mal um da família do outro.

Esta é a minha irmã de criação: Maria de Lourdes (Dinha).



- Postado por: Marujo às 09h36
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Continuação

 

Em plena madrugada eu estava de volta a capital, o trajeto que levei um dia inteiro para percorrer não levou mais uma hora para ser vencido pelo caminhão. Agradeci a carona ao amigo motorista e desci próximo ao bairro do major Dílson. Procurei um orelhão e liguei a cobrar para casa dele e dona Susana atendeu, mas as palavras me fugiram e acabei não dizendo nada. Continuei minha caminhada e no raiar da manhã estava na porta do apartamento do major e assim como foi no telefone, aconteceu também pessoalmente, eu fiquei mudo, envergonhado por minha atitude radical e incapaz de responder a qualquer indagação. O major e sua esposa não insistiram muito. Foi o último dia que passei na casa do major, pois no dia seguinte meu pai estava lá para me levar de volta. Nunca mais vi estas pessoas na minha vida, mas o pouco tempo que passei com eles foi o suficiente para que eu nunca os esqueça.

Uma outra coisa que me deixa perplexo quando me lembro destes fatos foi o tremendo senso de orientação que tive ao sair vagando, tanto em destino a praia quanto no caminho de volta.

Meu pai não trocou nenhuma palavra comigo. Eu estava temeroso, sabia que estava voltando para uma barra pesada, pois enfrentar a vida naquele quartinho, muitas vezes sem ter o que comer e estar sujeito às variações de personalidade de Seu Alcides me deixava apreensivo.

Perdido em meus pensamentos não notei que o ônibus em que embarcamos não era o que levava para o bairro do Cordeiro, mas no caminho eu percebi que estava voltando para o Ibura. Ignorar o que estava acontecendo comigo só me deixou mais nervoso, até que chegarmos à casa de Zefinha e ouvindo a conversa entre eles fiquei ciente de que estava de volta e isto me trouxe um certo alívio.

A conversa entre eles não foi muito longa e logo que meu pai se foi eu me tornei o centro das atenções e dos sermões, não só de Zefinha, mas de toda a família, até a esposa de Zezinho, meu irmão de criação me recriminou.

- Clemilton (acho que ainda não disse que este é o meu nome), você perdeu uma chance de ouro. Um rapaz de boa aparência como você não conseguir ficar com aquela família foi mesmo uma pena. Você poderia ter tudo.

Calado eu ouvi este e outros comentários feitos por pessoas que não sabiam o que se passou na minha pele e no meu psicológico.

Na casa de Zefinha tudo parecia ter voltado ao normal. Ela fez as pazes com o marido que agora trabalhava com Zezinho fabricando um tipo de doce e pipocas, Dinha e Zefinha começaram a trabalhar e isto aliviou a situação financeira. Eu também ajudava enchendo os saquinhos de pipoca e ganhava um centavo por cada saquinho devidamente cheio e fechado no fogo da vela.

Retornei aos estudos e fiquei surpreso de ter passado de ano no colégio no bairro do Cordeiro, mesmo depois de tantas faltas e não ter feito as provas finais a minha média permitiu isto.

Eu estava agora com treze anos de idade e cursando a sétima série do ensino fundamental e tudo parecia caminhar muito bem até que meu pai sumiu do mapa outra vez. Eu já não era uma criança e agora os comentários que Zefinha fazia a respeito da falta de responsabilidade do Sr. Alcides me deixavam sem graça, sem vontade de olhar para cara de ninguém.

Como se não bastasse, eu também fiquei sem condições de estudar, pois não tinha farda nem material e o dinheiro que eu ganhava com as pipocas não davam para suprir este tipo de necessidade.

Em meio a tudo isto houve outra mudança: Zezinho largou o ramo de doces e se aventurou como banqueiro do jogo do bicho, atividade ilegal mas amplamente difundida aqui no Recife. Arnaldo, meu padrasto, me ensinou a passar jogos e fui trabalhar em um ponto perto de casa. Isto me permitiu que no ano seguinte eu voltasse para a escola e comprasse o material para o meu estudo.



- Postado por: Marujo às 08h30
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Continuação

O juiz não atendeu o pedido do meu pai e explicou que a instituição era para menores infratores, que cometiam furtos, assassinatos, roubos e outros crimes. Eu saí daquele lugar sem entender muito o que estava se passando, embora as ameaças do meu pai fossem bem claras. Dias depois um oficial do quartel do Derby, onde se encontra o comando da polícia militar do estado de Pernambuco, chamou o meu pai para uma conversa. Seu nome era Dílson e na época ele era major. O juiz havia entrado em contato com o quartel informando sobre a tentativa de meu pai de colocar-me na FEBEM. Passei o dia no quartel do Derby e vi meu pai sair chorando do gabinete do major.

- Olá garoto, tudo bem? Perguntou o major.

Respondi meio sem jeito devido ao fato de ver seu Alcides com lágrimas nos olhos. Comecei a achar que ele me internaria no quartel, já que não conseguiu no juizado de menores.

No final do dia o major me levou até o seu veículo e fomos para a casa dele, um apartamento no bairro de Casa Amarela. Não era luxuoso, embora para mim parecesse um palácio. Conheci a esposa do major, dona Susana, uma mulher muito bonita e simpática, e também os seus dois filhos. Natália, a mais velha, estava com seus oito anos e Bruno tinha três aninhos. A noite chegou e como ninguém me disse nada, eu cheguei a conclusão que aquilo não era só um passeio. Eu estava sob a guarda do major Dílson, mas isto não era um ato oficial e hoje sei que ele sentiu pena de mim e das condições em que eu vivia.

Passei um período muito bom na casa do major, me apeguei às crianças, mas eu não me sentia como um membro da família, depois de alguns dias as tarefas que me davam deixaram bem claro que eu estava ali com uma oportunidade de mudança de vida e também de trabalho. Eu era o mais novo empregado da casa. Nunca me trataram mal, sempre foram atenciosos, me deixavam ir para a escola e providenciavam minha passagem. Isto pode parecer muito, e é, se olharmos apenas o lado material da questão, mas ainda faltava um algo mais que não estava no teto para dormir ou nas refeições. O sentimento de família estava bem distante.

Meu pai apareceu uma vez na casa do major para me visitar. Foi estranho e eu pensei que já estava na hora de ir com ele, mas ele se foi novamente e ninguém deixava clara a minha condição. Depois daquela visita eu comecei a ficar revoltado, era uma reação psicológica. Fiquei amuado, pelos cantos, passei a tirar leite condensado da despensa para tomar escondido e foi aí que me mandaram para uma outra casa. Esta sim era uma mansão no bairro do Derby, bem próxima ao quartel da polícia militar.

Tratava-se da residência de um juiz aposentado. Era um casarão com muitos cômodos e muitas pessoas morando nele. Na parte de trás tinha uma espécie de cômodo que servia para a empregada passar as roupas e guardar os materiais de limpeza. Foi lá que me instalaram, ou melhor, era o lugar onde eu dormia. Não tive dúvidas da minha condição naquele lugar. Se na casa do major eu tinha minhas tarefas diárias, nesta eu tinha muitas obrigações durante todo o período da manhã. Logo cedo, por volta das seis horas, o jardim era irrigado e limpo, comprava o pão para a família e assim que as crianças saíam para a escola e os adultos para o trabalho era a vez de lavar todos os banheiros da casa. Eu era o mais novo criado, sem direito a salário, trabalhando por comida e um lugar para dormir e eu sabia de tudo isto porque estava crescendo e entendendo o desastre que era a minha vida até aquele momento.

Eu estava tão distante daquele pessoal que até hoje não me lembro do nome de ninguém daquela família, nem mesmo da empregada, que era a pessoa mais próxima a mim. O sentimento de abandono e de revolta me torturavam por dentro e eu fugi daquele lugar.

De repente, sem nenhuma premeditação ou planejamento eu simplesmente saí a caminhar pra longe daquela casa, a mente ainda de criança não mediu a conseqüência do ato e eu caminhei, durante todo o dia caminhei. Meu destino era uma casa de praia que ficava na praia de Gaibu, litoral de Pernambuco, onde passei um final de semana com a família do major, talvez o único lugar onde tive bons momentos e esqueci que era um intruso. A noite chegou e eu ainda estava na estrada, não sentia fome, nem sono, um impulso vindo de dentro de mim levava-me adiante. Cheguei ao Cabo de Santo Agostinho e passei para a cidadezinha de Ponte dos Carvalhos e apesar do meu destino estar próximo, comecei a questionar se havia sentido naquela minha jornada. Era o arrependimento chegando, foi quando olhei para trás e resolvi voltar, já estava caminhando a mais de doze horas, o cansaço estava me vencendo quando notei que um caminhão parou no acostamento. O motorista perguntou para onde eu estava indo. Inventei uma história estranha sobre a morte de uma tia e ele me deu uma carona até Recife.



- Postado por: Marujo às 07h13
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Continuação

Começou então a fase mais tenebrosa da minha vida. Meu pai não tinha lugar certo para morar, vivia sendo transferido de cidade pelo interior do estado de Pernambuco. A cidade em que passei mais tempo foi Santa Cruz do Capibaribe, a terra da sulanca. Lá eu morei na cadeia pública, estava com onze anos de idade, fiquei fora da escola e passava o tempo fazendo favores para os presos e soldados da cadeia. Um dia simplesmente meu pai arrumou tudo que era nosso e embarcamos no ônibus para Caruaru. No caminho notei as lágrimas que rolavam do seu rosto. Soube depois que ele havia sido transferido por minha causa, pois o delegado não aceitou a situação de ter como morador da cadeia um adolescente.

Passei um tempo alojado no quartel de Caruaru, foi pior que em Santa Cruz, pois lá eu podia andar pela cidade, que era pequena, mas em Caruaru eu ficava confinado às dependências do quartel. Eu não sabia, mas o meu pai estava lá cumprindo pena por indisciplina.

Depois de mais ou menos um mês e meio ele foi mandado de volta para o Recife e fomos morar em um pequeno quarto no bairro do Cordeiro, onde morava a minha avó Dalila e alguns tios e primos meus.

Voltei aos estudos em uma escola pública, mas eu estava afetado psicologicamente por minha situação de pobreza e abandono, sim, abandono, eu só via meu pai quando ele voltava do trabalho, às vezes ele estava de serviço e eu passava a noite sozinho no quarto onde só havia um beliche e um pequeno fogareiro a álcool. Em uma destas ocasiões eu acordei com o quarto todo inundado, havia chovido e alagou toda a rua, eu não tive muito o que fazer, apenas coloquei uma mala para a parte de cima do beliche e esperei por toda a madrugada a chuva passar.

Na escola o meu comportamento distante chamou a atenção dos professores e tive que passar por uma psicóloga. Fiquei totalmente envergonhado, pois agora os colegas de classe me olhavam como se eu fosse um maluco.

Minha avó fazia o que estava ao seu alcance para me ajudar, mas ela também não tinha recursos, era zeladora de uma igreja evangélica e morava nos fundos, tudo que tinha vinha das doações dos irmãos da igreja.

Comecei então a ajudar o meu tio Neguinho, que puxava uma carroça por todo o bairro vendendo verduras, frutas e legumes. Era dali que tirava o sustento para sua família que não era pequena, uma mulher e cinco filhos, pelo menos eu tinha uma fruta para comer. Os estudos foram ficando para segundo plano, até que por outro ato de indisciplina meu pai foi preso novamente, desta vez ficou mesmo atrás das grades na cavalaria e eu fui morar lá dentro enquanto ele cumpria pena. Apesar dos pesares, foi um ótimo período, pois não faltava comida no quartel, eu fazia minhas refeições no rancho junto com os soldados que ali serviam.

Ao sair da prisão meu pai passou a me tratar com violência, principalmente quando voltava embriagado, depois de gastar todo o dinheiro com a bebedeira me acusava de o estar roubando, se bem que de vez em quando eu pegava algum dinheiro para comprar um pouco de leite ou pão. Meu pai então me levou ao juizado de menores para que eu fosse para a FEBEM (Fundação do Bem-Estar do Menor), uma espécie de prisão para quem ainda não atingiu a maioridade.



- Postado por: Marujo às 14h38
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Continuação

Terminei meu estudo primário e saí da escolinha da minha inesquecível professora Miriam para um colégio público na UR-3. O nome do colégio era Polivalente Dom Sebastião Leme e estava novo em folha, recém-inaugurado pelos políticos da época, era totalmente organizado e com grandes salas de aula.

Não foi fácil a transição da quarta para a quinta série, pois estranhei muito a quantidade de livros e cadernos que agora precisava levar para a escola. Estudar cada matéria com um professor diferente também era novidade para mim, a maioria deles nos tratava muito bem, mas havia dois ou três que gostavam do estilo carrasco. Uma destas figuras era a professora Antonina que lecionava geografia. Nunca soube porque ela pedia livros, pois toda a matéria era escrita no quadro negro para que nós copiássemos no caderno. Fiquei preguiçoso neste ano, fiz amizades com garotos que gostavam muito de bagunçar no colégio e era freqüentador assíduo da sala dos professores, em particular para cumprir castigo.

Minha facilidade em assimilar os conhecimentos ajudou muito nas matérias, mas a professora Antonina pegou no meu pé porque eu não gostava muito de copiar as anotações, minhas mãos cansavam rapidamente e doíam. E assim, no final do ano letivo, eu fiquei em recuperação em geografia e ainda por cima necessitando de uma nota oito e meio para passar de ano. Fiz os trabalhos, estudei bastante e na prova final tirei a nota oito, não foi o suficiente para a professora que me reprovou sem dó nem piedade.

Foi duro ouvir o sermão do meu pai e padrastos pelo fracasso na escola, mas hoje sei que se fosse meu filho eu teria ido à escola tentar conversar com o diretor, já que todas as minhas notas eram altas, com exceção a matéria de geografia, como isto não aconteceu, o jeito foi encarar outro ano na quinta série. No ano anterior eu era o aluno mais novo, agora eu estava na idade da maioria dos alunos da sala.

Repetir o ano não foi problema, eu tinha todo o material didático, todas as matérias anotadas, todos os exercícios feitos e sabia os assuntos que caíam em prova. Comecei então a me destacar dentre os colegas e até auxiliei a professora de francês no ensino de algumas lições. Os colegas da bagunça agora estavam em outra série, em outro horário e eu aprendi a lição. Dediquei-me em todas as matérias e recebi muitos elogios da minha professora de português Adail e dos meus professores de ciências Adelson e Adélia.

As brigas dos meus padrastos eram cada dia mais constante e o ambiente tornava-se inóspito. Arnaldo saiu do emprego e agora a situação começou financeira da família começou a mudar para pior. Como se não bastasse, meu pai pegou o hábito de aparecer em períodos cada vez mais longos, chegou a ficar cinco meses sem dar notícias.

Foi nesta época que descobri a biblioteca da escola e passava horas mergulhado em romances, aventuras e ficção. Era uma válvula de escape para mim, muitas vezes deixei de almoçar para ficar lendo. O ditado popular que diz que há males que vem para o bem  aplicou-se bem a minha vida nesta situação.

Inspirado por leituras, comecei a ficar meio desligado do mundo real, exercitei muito a minha imaginação e isolei-me dos amigos e da família, hoje sei que foi um reflexo do impacto que estava sofrendo com a mudança de ambiente familiar.

A situação entre Arnaldo e Zefinha agravou-se e culminou em uma separação. Zefinha abandonou o lar e foi morar com o seu irmão Zezinho, eu e Dinha fomos juntos, Márcia ficou com Arnaldo. Foi um período confuso, mas que não durou muito, pois meu pai apareceu e Zefinha me entregou em suas mãos por não ter condições de ficar mais comigo.

- Postado por: Marujo às 12h24
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Continuação....

 

Os dias se passavam e eu estava crescendo e entendendo mais claramente tudo que se passava a minha volta, comecei a notar os conflitos conjugais entre Zefinha e Arnaldo, por ciúmes e suspeita de existia uma outra mulher na vida dele. Dinha já estava uma moça e os namoradinhos começaram a aparecer. Eu e Márcia seguíamos no estudo primário, eu tinha uma certa facilidade em aprender, mas isto não me livrou de estudar a tabuada de joelhos algumas vezes. Comecei a ter liberdade para sair um pouco mais de casa e explorar a vizinhança, embora o que eu gostasse mais de fazer fosse passear pelo matagal que havia no bairro, sempre me disseram que era perigoso, mas meninos sempre são teimosos e foi em um destes passeios que encontrei uma mulher escondida em uma moita que me chamou de longe.

- Menino, ô menino! Gritou ela. Na hora fiquei com medo, não entendi porque aquela mulher me chamava.

- Vem cá menino! Por favor! Insistiu. Deixei o medo de lado e fui ao seu encontro.

- Você está vendo aquela moça na frente daquela casa? Perguntou ela apontando para a irmã de um colega meu e sem permitir que eu chegasse mais perto.

- Eu preciso que você vá até lá e diga que eu preciso muito falar com ela. Diga que é urgente.

Não entendi o porquê de chamar uma pessoa com urgência para o meio do mato, mas obedeci e saí correndo ao encontro de Elza, irmã de Elizeu, um amigo de infância.

Dali segui para minha casa e no dia seguinte fiquei sabendo que aquela mulher havia sido assaltada na estrada que ligava Ibura a Dois Carneiros e que estava totalmente despida no meio do mato.



- Postado por: Marujo às 10h08
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Continuação

 

O que dona Zefinha não sabia é que meu pai, o PM Alcides, não era muito cumpridor de seus deveres e muitas vezes passava meses sem aparecer e por conta disto eu ficava com muitas necessidades pendentes, como roupas, calçados, material escolar. O que dona Zefinha e seu marido Arnaldo podiam fazer por mim era suprir-me nas coisas mais importantes.

A casa que morávamos era pequena, um modelo criado pelo governo para as famílias de baixa renda. Arnaldo fez uma pequena reforma e construiu um quarto que a gente chamava de “último”, por ele ficar na parte de trás da casa. Neste quarto dormíamos eu e minhas duas irmãs de criação.

Comecei a estudar em uma escolinha particular do bairro e nunca me esqueci da minha professora, dona Miriam, que me ensinou a ter uma boa leitura e a raciocinar bastante nos pequenos problemas matemáticos.

Lembro-me do dia em que ganhei minha primeira bicicleta, foi uma alegria e uma frustração, pois depois de uma tarde de aula minha madrasta decidiu que eu não sabia andar e que ela não teria tempo de me ensinar e sendo assim meu pai apareceu na semana seguinte e levou a bicicleta para vender.

Arnaldo, meu padrasto, começou a trabalhar em uma boa empresa e a vida começou a melhorar um pouco, móveis novos chegaram, deram meu breco de presente a parentes, isso mesmo, meu berço, pois até os sete de idade eu dormi em um. Passei então a dormir em um beliche com Márcia e Lourdes na sua cama separada.

Lourdes ou Dinha, como era mais carinhosamente chamada, era sete anos mais velha que eu, uma mocinha que vivia em mundo totalmente diferente do meu e de Márcia. Já tinha seus namoricos e dava bastante trabalho a Zefinha que vivia em busca dela depois do colégio.

Márcia e eu tínhamos nossos conflitos próprios da idade, muitas vezes eu me dava mal, pois Zefinha sempre puxava a sardinha para o lado de Márcia, afinal de contas, era sua filha e era menina.

Não posso negar que tive momentos felizes. Lembro-me que um dia alguém estava pintando o cabelo e eu insisti para que o meu, que era loiro, fosse pintado, farra de criança mesmo. Aconteceu então que Arnaldo chegou do trabalho e Márcia e eu estávamos fazendo uma tremenda algazarra no quarto, ele chegou e deu uma tremenda bronca e saiu, minutos depois voltou com a cara desconfiada, olhou fixamente para mim e caiu na gargalhada, pois tinha vindo na intenção de se desculpar comigo achando que eu era outra pessoa visitando a casa.

O bairro do Ibura era cercado por muita área de mata e sítios, nós morávamos na parte chamada de UR-2, a minha mãe de criação e Zezinho moravam na UR-3. A distância entre estas duas UR era curta e nós freqüentemente estávamos visitando a casa dos parentes. Quando eu estava com oito anos, dona Maria adoeceu gravemente e depois de um tempo no hospital veio a falecer. Eu era ainda muito criança, mas senti um imenso vazio, pois na verdade, ela havia sido a única pessoa a quem eu chamei de mãe.



- Postado por: Marujo às 09h05
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